AILA
 
 
 
 
VERGONHA E INDIGNAÇÃO.

Vivemos num país continental, imenso. E essa imensidão traz em seu bojo um conjunto de diferenças, climáticas, econômicas, culturais, geográficas, enfim, no Brasil temos vários brasis. 

 De um lado, riqueza, pompa, fertilidade, tecnologia, reservados aos Estados do Sul e Sudeste, de outro, a ingratidão climática do Nordeste, já conhecida de D. Pedro II o qual propôs vender jóias da coroa para resolver o problema do nordestino, já pobre desde àquela época. 

 De lá até aqui, apesar de toda evolução científica e tecnológica, pouco caminhamos. Agora, vivemos as agruras do el niño que parece ser neste fim de século o responsável por várias desgraças em todo o mundo. Para uns reserva enchentes, para outros, seca, terremotos, ventanias, furacões, enfim, assistimos a evolução dos males que este fenômeno nos traz. 

 A escritora  cearense Rachel de Queiroz, em sua monumental obra O  15 retratou com rara felicidade a saga do povo nordestino tangido pela seca no ano de 1915 quando, aos montes, abandonaram seu torrão natal em busca de alimentação e trabalho em centros maiores.  Narra a escritora, nascida em Quixeramombim,  tudo o que assistiu e o que lhe contaram seus antepassados. Mostra a leva de famílias aminhando vagarosas montadas em lombos de jumentos procurando o que comer, o que beber e o que fazer, muitos morreram na busca, de fome, desnutrição, doenças.  

 Faltam dois anos para iniciarmos uma nova era e vivemos hoje no Nordeste o mesmo momento vivido por D. Pedro II e narrado por Rachel de Queiroz. Agora, deparamo-nos com uma realidade nova, os saques, a violência. Para nós, nordestinos que nos orgulhamos da valentia do nosso povo essas atitudes nos causam um misto de vergonha e indignação. Nosso povo não tem essa índole,  esses são costumes importados do Sul e Sudeste. 

 Nos indignamos quando pensamos que falta vontade política para resolver em definitivo o problema do Nordeste, afinal não somos os únicos a conviver em esse fenômeno, já esperado e absolutamente previsível. Nos envergonhamos porque sendo a fome má conselheira traz consigo a fragilidade do homem perante outro homem, mais experiente nas lutas armadas. Assim, mais uma vez nos violentaram, desta feita arrebataram a nossa consciência relevando-a a um estômago vazio e a uma panela fria. 

 O momento é propício para os aproveitadores de plantão. Assistimos saques a pequenos comércios nas cidades interioranas, assaltos a carros carregados de alimentos nas estradas, ameaças de invasões.  Esse não é o Nordeste que conhecemos.  

 Nós, cearenses, pernambucanos, paraibanos, pedimos e imploramos que nos dêem emprego, água e esperança. Agradecemos a solidariedade dos que mandam alimentos, mas, depois de comidos a fome volta e não queremos o peixe, queremos a rede para pescá-lo do fundo mar.  
 

                Sérgia Miranda
    Fortaleza-Ceará-Brasil
 
 
 
 
 
 
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